O ”marketing de lacração”

Ações afirmativas para estimular a presença de minorias sub-representadas nas empresas são parte de uma tendência mundial em andamento já há alguns anos. Porém, o recente processo seletivo exclusivo para negros da Magazine Luiza popularizou este tema no Brasil e iniciou uma onda que foi acompanhada por outras grandes empresas, como Bayer, Vivo e Unilever.

Estas ações, em pouco tempo, revelaram-se muito benéficas para as empresas, gerando uma publicidade espontânea que custaria milhões se fosse paga, exponenciando seu brand awareness, e gerando grandes valorizações nos seus papéis no mercado financeiro.

Por causa destes resultados, há os que falam: “Tá vendo só? Isso é só marketing de lacração! Essas empresas estão fazendo isso pensando no lucro, e não porque são boazinhas!

Será que realmente só o lucro foi colocado na equação? Apesar de improvável, consideremos como uma chance não-zero. Ainda assim, a razão verdadeira não é relevante — afinal, o coração dos homens só a Deus pertence. Mesmo que o objetivo tenha sido meramente comercial, temos muito o que comemorar. Senão vejamos:

Ao longo de toda história moderna, os resultados de negócios sempre foram usados como justificativa para a manutenção do status quo desigual. Afinal, “não é perseguição, são apenas negócios; contrato os mais capacitados, que posso fazer se os negros / mulheres / gays são menos capacitados?” Além disso, pairava no inconsciente coletivo uma série de juízos de valor que faziam com que as empresas perdessem valor percebido, caso se aventurassem a dar muita atenção à contratação dessas pessoas. Contratar minorias dava prejuízo!

Conseguir alinhar justiça social com lucros é uma conquista recente, que custou caro para ser obtida. Fazer o capital entender que diversidade é riqueza é um processo de lentidão geológica, uma vez que gerações inteiras precisam passar para que mentalidades fixas sejam substituídas, paradigmas sejam revistos e as minorias tenham oportunidades reais de mostrarem seu valor, acabando com estereótipos.

Desastres naturais incomensuráveis, como o de Brumadinho, despertam nossa consciência ambiental e eventos políticos históricos, como a eleição de Barack Obama, despertam a consciência social. São como aceleradores da nossa lenta evolução coletiva, de forma que agora, em 2020, finalmente parece que boas práticas nas áreas Ambiental, Social e de Governança, o chamado eixo ESG (na sigla em inglês, como são conhecidas internacionalmente), estão tendo impacto direto e positivo nos resultados de negócios.

De acordo com recente pesquisa1, cada vez mais os investidores estão contando com informações ESG como insumos para seus processos de tomada de decisões. E utilizando estes parâmetros como lentes para definições de grau de investimento e potencial futuro.

Em 2018, 85% das companhias listadas no índice S&P 500, da Bolsa de Nova York, produziram alguma forma de relatório ESG. Houve também um aumento de requerimentos regulatórios relacionados a tais parâmetros, totalizando mais de 1 mil em 63 países2.

Que belo momento estamos vivendo! 

Conseguir alinhar o combate às desigualdades com o lucro é motivo para ser louvado, e não criticado.

Portanto, quando nos deparamos com o argumento do “só fazem isso porque dá lucro”, a única resposta possível é: “Sim. E daí? Tem saudades dos tempos em que contratar minorias dava prejuízo?



Fontes:

1. https://www.ey.com/en_gl/assurance/does-nonfinancial-reporting-tell-value-creation-story

2. https://cebds.org/esg-as-tres-letras-que-estao-mudando-comportamento-os-investimentos/